Borboleta. Pássaro. Gavião.
Paixão: 1. Sentimento ou emoção de intensidade suficiente para alterar a capacidade de raciocínio, a lucidez e o comportamento. 4. Inclinação ou entusiasmo extremado e obsessivo por alguma coisa. 7. Grande mágoa, dor.
Amor: 1. Sentimento que se tem por uma pessoa com que se deseja alcançar união física e afetiva. 2. Sentimento profundo de afeição entre as pessoas. 3. Forte interesse por uma coisa.
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“Na quarta-feira à noite, caminhavam calmamente pelas ruas desertas da cidade, inocentemente, sem medo algum. Ambos sentiam algo em seu estômago. Não eram apenas borboletas.
Na quinta-feira, enquanto partiam o pãozinho em dois – um pedaço para cada um – na cafeteria perto do centro, ele fez o convite. Talvez fossem pássaros no organismo.
Na sexta-feira, ela chegou ao apartamento dele perto das oito horas, conforme haviam combinado. Ela tocou a campainha e, no segundo seguinte, a porta se abriu. Talvez fossem gaviões entalados no interior dos dois. A ave em seus corpos balançava as asas desesperadamente, provocando enjôo.
- Eu cozinhei. – Foi o que ele disse, apontando para a mesa de seis lugares. Ela sorriu e sentou-se em uma das pontas. Ele a acompanhou com passos mais lentos.
Ela acomodou-se na cadeira estofada, deslizou o olhar pela parede à frente até chegar à janela. Podia ver o sol se pôr. Os raios solares eram a única luz dentro da sala.
Então, sentiu os seus pulsos pressionados contra o encosto da cadeira. Primeiro um, atado com tamanha agilidade contra a madeira que tudo o que ela pôde fazer foi prender a respiração rapidamente. Depois, o outro. Levemente assustada, nem mesmo tentou impedir o ato.
Ele sentou na cadeira ao lado. Sorriram um para o outro. Permaneceram assim por um bom tempo, até que ele despertou do transe e, sorrindo timidamente, abriu a garrafa de vinho e serviu as duas taças. Aproximando-se mais, ele pegou uma e levou na direção dos lábios dela. Em seguida, serviu no prato uma pequena quantia de camarão ao molho branco. Cortou o alimento em dois e levou um dos pedaços à boca dela.
- Seu prato preferido. Eu sei. – Disse. Ela entreabriu os lábios, sentindo-se feliz pelo fato de ele saber algo a respeito das suas preferências.
- Os últimos dias têm sido loucos, não é? – Ele continuou, rindo e brincando com a faca no camarão cortado enquanto ela mastigava. – Não consigo trabalhar, estudar, nem mesmo respirar sem ter você em mente, minha querida.
Ela sentiu um gélido arrepio percorrer a sua espinha e a borboleta, ou pássaro, ou o gavião enlouquecer dentro dela. Agora, parecia que os três animais estavam lá dentro, lutando pelo alimento que ela acabara de digerir.
- Isso é… – Ela começou, mas logo se calou. Ele havia levantado e saído do seu campo de visão. Logo ele voltou e, parando atrás dela, passou um pedaço de pano entre os lábios da sua querida, amarrando-o com firmeza.
Sentou-se novamente.
- Eu tento não pensar em você, tento não fantasiar, mas quando menos espero, lá está você, caminhando pela minha mente! – Ele sussurrou tão perto do seu rosto que ela podia sentir a respiração dele tocar a sua pele. Sentia também o rubor tomar conta do seu rosto enquanto mordia fortemente o pano, pois não podia mais sorrir. Estava em frenesi e nem mesmo sentia o fio gélido tocando o seu pescoço.
- É uma doença! – Ele falou rindo. Seus olhos brilhavam, ela podia notar. Notava tudo, menos a faca descendo pelo seu peito. – Você tirou de mim a única coisa que sempre foi minha: eu mesmo! – E aproximou tanto o seu rosto do dela que os narizes se tocaram. Ela tentava fazer contato labial enquanto ele olhava fixamente nos olhos dela. De repente, os olhos se fecharam.
Penetrou, sem hesitação, a faca no estômago dela, sem pensar que ali poderia viver uma borboleta, um pássaro ou um gavião. Após o primeiro golpe, ele movimentou a faca mais vezes; porém, com mais violência.
Somente quando a cadeira, junto do corpo, caiu no chão, ele notou: não era paixão. Era amor.”
Fannie Saldanha é atual estudante de Letras. Seu interesse é expôr em segredo palavras nunca ditas, sentimentos pouco explorados e histórias vivenciadas apenas em pensamento.