February 2nd
8:16 AM

Razão Contra Sandice

[…] La maison est à moi, c’est à vous d’en sortir.

   Mas é sestro antigo da Sandice criar amor às casas alheias, de modo que, apenas senhora de uma, dificilmente lha farão despejar. É sestro; não se tira daí; há muito que lhe calejou a vergonha. Agora, se advertimos no imenso número de casas que ocupa, umas de vez, outras durante as suas estações calmosas, concluiremos que esta amável peregrina é o terror dos proprietários. No nosso caso, houve quase um distúrbio à porta do meu cérebro, porque a adventícia não queria entregar a casa, e a dona não cedia da intenção de tomar o que era seu. Afinal, já a Sandice se contentava com um cantinho no sótão.

   - Não, senhora, replicou a Razão, estou cansada de lhe ceder sótãos, cansada e experimentada, o que você quer é passar mansamente do sótão à sala de jantar, daí à de visitas e ao resto.

   - Está bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistério…

   - Que mistério?

   - De dois, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peço-lhe só uns dez minutos.

   A Razão pôs-se a rir.

   - Hás de ser sempre a mesma coisa… sempre a mesma coisa… sempre a mesma coisa…

   E, dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A Sandice ainda gemeu algumas súplicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se depressa, deitou a língua de fora, em ar de surriada, e foi andando…

January 7th
9:30 PM
"

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso qua a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

"
—  ANJOS, Augusto dos. - A Ideia
August 5th
10:24 PM

Quem é ela? Quem é ela?

Lembro-me de quando, em minha infância, as canções de Adriana Calcanhoto tocavam exaustivamente, durante inúmeras tardes chuvosas de tempos em que as preocupações do mundo adulto ainda não tinham efeito sobre mim.
O tempo passou, o universo me engoliu e Esquadros passou a fazer sentido, assim como os passeios pelo escuro, o gostar de opostos e o acordar com ninguém ao lado.
O individualismo cada vez mais presente nos dias atuais se tornou um dos maiores enigmas de compreensão para uma pessoa criada sem tendências egoístas. É inevitável que a insegurança apareça em momentos em que, na incompatibilidade social de seus pensamentos, tudo o que se deseja é desligar-se do exterior e aparentar estar tudo bem.
Fruto de uma geração que por muito pouco antecede aquela nascida na Era da Informação, já parecia previsível que não se adequasse a selva que a humanidade ajuda a construir em velocidade máxima e sem medir as consequências.

Jaqueline Izequiel tende a filosofar mais do que deseja em suas tentativas de expressão. Aspirante a jornalista, escreve mais do que fala e observa mais do que se envolve.

July 28th
9:58 PM

E se o meu silêncio te falar as palavras erradas?

July 9th
10:33 AM
"

Meu Deus, Senhor meu Deus, o que há no mundo
Que não seja sofrer?
O homem nasce, e vive um só instante,
E sofre até morrer!

A flor ao menos, nesse breve espaço
Do seu doce viver,
Encanta os ares com celeste aroma,
Querida até morrer.

É breve o romper d’alva, mas ao menos
Traz consigo prazer;
E o homem nasce e vive um só instante:
E sofre até morrer!

Meu peito de gemer já está cansado,
Meus olhos de chorar;
E eu sofro ainda, e já não posso alivio
Sequer no pranto achar!

Já farto de viver, em meia vida,
Quebrado pela dor,
Meus anos hei passado, uns após outros,
Sem paz e sem amor.

O amor que eu tanto amava do imo peito,
Que nunca pude achar,
Que embalde procurei, na flor, na planta,
No prado, e terra, e mar!

E agora o que sou eu? - Pálido espectro,
Que da campa fugiu;
Flor ceifada em botão; imagem triste
De um ente que existiu…

Não escutes, meu Deus, esta blasfêmia;
Perdão, Senhor, perdão!
Minha alma sinto ainda, - sinto, escuto
Bater-me o coração.

Quando roja meu corpo sobre a terra,
Quando me aflige a dor,
Minha alma aos céus se eleva, como o incenso,
Como o aroma da flor.

E eu bendigo o teu nome eterno e santo,
Bendigo a minha dor,
Que vai além da terra aos céus infindos
Prender-me ao criador.

Bendigo o nome teu, que uma outra vida
Me fez descortinar,
Uma outra vida, onde não há só trevas,
E nem há só penar.

"
—  DIAS, Gonçalves. - Sofrimento
June 24th
1:37 PM

Sentimentos de um dia cinzento.

“Quem não gosta de ouvir passarinhos cantando timidamente, enquanto eles esperam a garoa cair para que possam brincar? Os cachorros latem em algum lugar distante e o céu está tão limpo nesse lugar! Está tudo tão calmo! Não venta. Eu me pergunto: “Estará o tempo correndo? Estarei eu respirando? Existem movimentos?” E logo percebo que, provavelmente, algo importante estará acontecendo longe daqui.

A minha mente não funciona dentro dessas quatro paredes e a única coisa que preenche o quarto é esse sentimento cinza, que foge de entre as nuvens e entra em mim - talvez pelos poros da minha pele, talvez pelas cavidades nasais - e estufa o meu peito, bombeia esse pequeno músculo. Sentimentos que penetrem a minha alma agora, e tudo o que me permito fazer é esquecer os compromissos. Espero, num cantinho, esse efeito anestésico passar.”

Fannie Saldanha é atual estudante de Letras. Seu interesse é expôr em segredo palavras nunca ditas, sentimentos pouco explorados e histórias vivenciadas apenas em pensamento.

June 18th
6:20 PM

Você sonhava acordada/Um meio de não sentir dor/Prendia o choro/Prendia o choro e aguava o bom do amor… (Cazuza)

Sentimentos de liquidificador

“Sorrisos são formados em meu rosto por uma vaga lembrança do que nunca aconteceu. Minha alma, essa pequena coisinha agitada que corre pelo meu interior, para de fornecer ao liquidificador que bate o meu sangue a energia necessária para deixar com que o meu corpo flutue nesse abismo sentimental, nessa felicidade clandestina na qual me torno frágio. Torno-me o que nunca quis ser.

Nunca?

Vivo nessa eterna insatisfação. Ora anseio por algo que me anseie, ora anseio por falta de anseio. Ansiedade, angústia, incerteza aflitiva tornam-se sinônimos da minha vida. E eis que a incerteza domina cada passo, e quando piso em uma lajota frouxa ou em um piso escorregadio, volto a cair no mesmo, velho abismo. Sonho acordada e não acredito em um único fruto da minha imaginação, pois agora nada mais sou do que o medo de ganhar possuído pelo medo de perder.”

Fannie Saldanha é atual estudante de Letras. Seu interesse é expôr em segredo palavras nunca ditas, sentimentos pouco explorados e histórias vivenciadas apenas em pensamento.

June 7th
4:35 PM
"

Eu conheci razoavelmente bem Clarice Lispector. Ela era infelicíssima, Zézim. A primeira vez que conversamos eu chorei depois a noite inteira, porque ela inteirinha me doía, porque parecia se doer também, de tanta compreensão sangrada de tudo. Te falo nela porque Clarice, pra mim, é o que mais conheço de GRANDIOSO, literariamente falando. E morreu sozinha, sacaneada, desamada, incompreendida, com fama de “meio doida”. Porque se entregou completamente ao seu trabalho de criar. Mergulhou na sua própria trip e foi inventando caminhos, na maior solidão. Como Joyce. Como Kafka, louco e só lá em Praga. Como Van Gogh. Como Artaud. Ou Rimbaud.

É esse tipo de criador que você quer ser? Então entregue-se e pague o preço do pato. Que, freqüentemente, é muito caro. Ou você quer fazer uma coisa bem-feitinha pra ser lançada com salgadinhos e uísque suspeito numa tarde amena na Cultura, com todo mundo conhecido fazendo a maior festa? Eu acho que não. Eu conheci/conheço muita gente assim. E não dou um tostão por eles todos. A você eu amo. Raramente me engano.

Zézim, remexa na memória, na infância, nos sonhos, nas tesões, nos fracassos, nas mágoas, nos delírios mais alucinados, nas esperanças mais descabidas, na fantasia mais desgalopada, nas vontades mais homicidas, no mais aparentemente inconfessável, nas culpas mais terríveis, nos lirismos mais idiotas, na confusão mais generalizada, no fundo do poço sem fundo do inconsciente: é lá que está o seu texto. Sobretudo, não se angustie procurando-o: ele vem até você, quando você e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, você precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.

E ler, ler é alimento de quem escreve. Várias vezes você me disse que não conseguia mais ler. Que não gostava mais de ler. Se não gostar de ler, como vai gostar de escrever? Ou escreva então para destruir o texto, mas alimente-se. Fartamente. Depois vomite. Pra mim, e isso pode ser muito pessoal, escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta. E eu acho — e posso estar enganado — que é isso que você não tá conseguindo fazer. Como é que é? Vai ficar com essa náusea seca a vida toda? E não fique esperando que alguém faça isso por você. Ocê sabe, na hora do porre brabo, não há nenhum dedo alheio disposto a entrar na garganta da gente.

"
—  Caio Fernando Abreu, Carta ao Zézim
June 4th
10:41 AM

Borboleta. Pássaro. Gavião.

Paixão: 1. Sentimento ou emoção de intensidade suficiente para alterar a capacidade de raciocínio, a lucidez e o comportamento. 4. Inclinação ou entusiasmo extremado e obsessivo por alguma coisa. 7. Grande mágoa, dor.

Amor: 1. Sentimento que se tem por uma pessoa com que se deseja alcançar união física e afetiva. 2. Sentimento profundo de afeição entre as pessoas. 3. Forte interesse por uma coisa.

 -

“Na quarta-feira à noite, caminhavam calmamente pelas ruas desertas da cidade, inocentemente, sem medo algum. Ambos sentiam algo em seu estômago. Não eram apenas borboletas.

Na quinta-feira, enquanto partiam o pãozinho em dois – um pedaço para cada um – na cafeteria perto do centro, ele fez o convite. Talvez fossem pássaros no organismo.

Na sexta-feira, ela chegou ao apartamento dele perto das oito horas, conforme haviam combinado. Ela tocou a campainha e, no segundo seguinte, a porta se abriu. Talvez fossem gaviões entalados no interior dos dois. A ave em seus corpos balançava as asas desesperadamente, provocando enjôo.

- Eu cozinhei. – Foi o que ele disse, apontando para a mesa de seis lugares. Ela sorriu e sentou-se em uma das pontas. Ele a acompanhou com passos mais lentos. 

Ela acomodou-se na cadeira estofada, deslizou o olhar pela parede à frente até chegar à janela. Podia ver o sol se pôr. Os raios solares eram a única luz dentro da sala.

Então, sentiu os seus pulsos pressionados contra o encosto da cadeira. Primeiro um, atado com tamanha agilidade contra a madeira que tudo o que ela pôde fazer foi prender a respiração rapidamente. Depois, o outro. Levemente assustada, nem mesmo tentou impedir o ato.

Ele sentou na cadeira ao lado. Sorriram um para o outro. Permaneceram assim por um bom tempo, até que ele despertou do transe e, sorrindo timidamente, abriu a garrafa de vinho e serviu as duas taças. Aproximando-se mais, ele pegou uma e levou na direção dos lábios dela. Em seguida, serviu no prato uma pequena quantia de camarão ao molho branco. Cortou o alimento em dois e levou um dos pedaços à boca dela.

- Seu prato preferido. Eu sei. – Disse. Ela entreabriu os lábios, sentindo-se feliz pelo fato de ele saber algo a respeito das suas preferências.

- Os últimos dias têm sido loucos, não é? – Ele continuou, rindo e brincando com a faca no camarão cortado enquanto ela mastigava. – Não consigo trabalhar, estudar, nem mesmo respirar sem ter você em mente, minha querida.

Ela sentiu um gélido arrepio percorrer a sua espinha e a borboleta, ou pássaro, ou o gavião enlouquecer dentro dela. Agora, parecia que os três animais estavam lá dentro, lutando pelo alimento que ela acabara de digerir.

- Isso é… – Ela começou, mas logo se calou. Ele havia levantado e saído do seu campo de visão. Logo ele voltou e, parando atrás dela, passou um pedaço de pano entre os lábios da sua querida, amarrando-o com firmeza.

Sentou-se novamente.

- Eu tento não pensar em você, tento não fantasiar, mas quando menos espero, lá está você, caminhando pela minha mente! – Ele sussurrou tão perto do seu rosto que ela podia sentir a respiração dele tocar a sua pele. Sentia também o rubor tomar conta do seu rosto enquanto mordia fortemente o pano, pois não podia mais sorrir. Estava em frenesi e nem mesmo sentia o fio gélido tocando o seu pescoço.

- É uma doença! – Ele falou rindo. Seus olhos brilhavam, ela podia notar. Notava tudo, menos a faca descendo pelo seu peito. – Você tirou de mim a única coisa que sempre foi minha: eu mesmo! – E aproximou tanto o seu rosto do dela que os narizes se tocaram. Ela tentava fazer contato labial enquanto ele olhava fixamente nos olhos dela. De repente, os olhos se fecharam.

Penetrou, sem hesitação, a faca no estômago dela, sem pensar que ali poderia viver uma borboleta, um pássaro ou um gavião.  Após o primeiro golpe, ele movimentou a faca mais vezes; porém, com mais violência.

Somente quando a cadeira, junto do corpo, caiu no chão, ele notou: não era paixão. Era amor.”

Fannie Saldanha é atual estudante de Letras. Seu interesse é expôr em segredo palavras nunca ditas, sentimentos pouco explorados e histórias vivenciadas apenas em pensamento.

May 27th
1:35 PM

Poetas não gostam de clichês.

“Poetas procuram maneiras novas de se expressar e surpreender o coração que o observa, pretendendo dar um novo ritmo a esse músculo. Poetas são eternos apaixonados. Eternos desgraçados. Poetas não gostam de clichês. Eles não querem dizer “Ontem à noite, antes de adormecer, pensei muito em você” ou “Acordei contigo em mente, te procurando entre os lençóis”, mas, no fundo, é o que sempre acabam dizendo.”

Fannie Saldanha é atual estudante de Letras. Seu interesse é expôr em segredo palavras nunca ditas, sentimentos pouco explorados e histórias vivenciadas apenas em pensamento.